sábado, 10 de outubro de 2009

Judite e Holofernes

O homem entrou na residência apagada e lamentável. Sentou-se à mesa e comeu as bisnagas e as carnes preparadas pela mulher. Ela olhava com assombro para os canários do quintal.
- Dê-me outra caneca, Judite. O homem levantou-se e pegou a caneca.
Ela entrou na cozinha. Pegou o machado e levantou a imagem, exigindo proteção. Chamou a velha dos sortilégios, a bruxa, e voltou à sala. Cortou a cabeça de Holofernes, sentou-se à mesa e comeu também.
Caravaggio, imaginando semelhante teatro, sentou-se, comeu e pintou o quadro. E todos imaginaram, então, situação exatamente idêntica.

O apostador

Angel era exímio jogador de dados, roleta e 21. Conseguia calcular probabilidades em frações mínimas de segundo. Tinha raciocínio metódico e instantâneo, e aos 24 anos obteve consagração e celebração em Atlantic City.
Borges enviou-lhe, então, a Las Vegas. Ele conquistou U$$ 233.127 em prêmios, limpou máquinas e controladores, devorou residências e abandonou prostitutas. Experimentou bebidas desconhecidas e adormeceu, pouco cauteloso, dentro do famoso Shelby GT500 de Randall Raines.
Acordou, horas depois, confortavelmente instalado na residência familiar de Guadalajara, e tomou café. Releu os jornais e chegou, pontual, à escola.
America's playground was just a dream.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

As plantações de trigo

Juan caminhava todas as manhãs, religiosamente, pelas 89 plantações de trigo fundadas em 1453 nas planícies de Valdemossa. Vizinho de Chopin, nômade e beberrão, o agricultor tornara-se mestre nas artes de fabricação da cerveja especializada. E quis construir  Constantinopla.

O investimento ganhou subsídios e investimentos e amealhou a confiança de Borges, homens e mulheres poderosos. Solícito, Juan respondeu com promessas vultuosas e atraentes; trouxe idéias impossíveis e impraticáveis e arrebatou as atenções da província. Comprou ternos claros e coloridos. Vestiu porcos e canivetes com agulhas douradas e detalhes magníficos. Nomeou-se Alexandre, O Grande.


A idéia fracassou; virou emplasto. E descobriu-se, posteriormente, o verdadeiro motivo. Enterrado entre os míudos feixes de trigo restantes, o solidéu romano antigo, jurássico, contava a história. 


O circo, desnecessário, jamais deveria suplantar a panificação. Maldita terra prometida.

As cimitarras dos rebeldes

Os rebeldes tomaram a prefeitura, o salão de festas, os moinhos e as plantações. Saquearam as senhoras, os vendedores e as crianças. Ao pôr-do-sol, partiram com as queimadas, o crepúsculo e o sorriso.
A conquista gerou soberba e inflamação moral. Eles beberam com desmesura e abandonaram os cuidados posteriores ao sucesso. Trocaram a carga necessária das cimitarras pelos desvarios da fortuna exagerada. E seguiram caminho desprotegidos.
Mas estamos no século XXI; e as espadas, enfim, enferrujadas e opacas. Ficaram estampadas, arenosas e visíveis, as impressões digitais dos guerrilheiros.
E a justiça chegou, posteriormente, anunciada por Borges. Sem cavalos, charretes e espingardas; montada em poderosos tanques e bólidos.
A crise da modernidade.

Os corredores

Centrium, a Biblioteca, é etérea, espacial e sufocante. Seus corredores infinitos formam figuras geométricas congruentes e angulares. E ninguém consegue completar o percurso cultural; todos, sem exceção, morrem ao atravessar a prateleira XLII -  a morte é instantânea e indolor.

Cientistas e bacharéis atravessam o universo e as constelações tentando solucionar o enigma visceral da Biblioteca. Viajam léguas e distâncias inomináveis, desperdiçam séculos e séculos, vidas inteiras. Alguns, conta-se, morrem e renascem diversas vezes e, infelizes, permanecem falhando.

E Borges pergunta: alguém oferece seus serviços à causa?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sandice

Sandice imensa acreditar fielmente nas parábolas infinitas de Borges. Completa ausência de lucidez. Imaginar bibliotecas infinitas, estantes inumeráveis e objetivar, arrogante, conhecer todos os livros escritos, ousados e silenciosos da história universal. É impensável enveredar pelas plataformas hexagonais; tatear cego e obcecado pelos corredores infinitos e últimos, sempre procurando a outra versão do Quixote de Benjamin Havoc.

Não existem tantos exemplares, clássicos e versões. O mundo nunca seria condicionado a superfície igualmente hermética, sufocante e inatingível.

Não? Prove.

A menor probabilidade impossível

Você sempre tentará jogar os livros de Borges pela sala, pelo quarto, pela casa. Fará isso repetidas e infinitas vezes, alternando o método e sorteando o estilo. Eles baterão nos móveis e nos eletrodomésticos, nas lâmpadas e nos sofás; e sofrerão o mesmo até ricochetear em todas as lacunas indivisíveis da estrutura física universal.
Passado certo tempo, você desistirá, enfim; é inútil.
Os livros jamais cairão deitados.